Juca era um menino especial, sempre ouviu dizer isso. De um jeito ou de outro, por mais que duvidasse de si mesmo ou de qualquer outra coisa que lhe acontecesse, acabava tudo dando certo e seus pedidos eram atendidos, ainda que com atrasos. E sempre que colocado contra a parede, surgia uma solução provisória que seria coberta com o tempo. Escondido ou não.
Seu talento para atrair confusão era imenso, nunca conseguiu entender bem a resposta da pergunta "por quê comigo?". Na verdade ele nunca encontrou uma resposta convincente pra essa pergunta. E acabava sempre repetindo ela quase como um exercício diário de "ah não! Comigo não! De novo?!".
Chegava, na verdade, a pensar se tudo que acontecia era alguma forma de piada que a sua mãe tinha armado pra ver como ele se sairia. Mas de desculpa aqui e ali, com um jeitinho de um lado e de outro... As coisas foram acontecendo e tomando um rumo quase natural na vida dele. Quase.
Uma das coisas que mais impressionava a Juca nele mesmo era a capacidade de passar por muitas (MUITAS) coisas sem falar nada com absolutamente ninguém. Desde aquela dorzinha de cabeça à raiva extrema da professora (disfarçada com os melhores sorrisos). Na verdade, ele era mais especial do que as pessoas pensavam, e fazia questão de não falar nada disso a ninguém: Desde muito criança, um de seus ouvidos era virado pra dentro!
Dizem que essa é uma das características muito comum das crianças, que têm uma audição mais sensível; mais apurada. Na verdade, com o tempo e a idade avançando essas crianças têm os ouvidos poluídos pelos barulhos e ordens do que é "real"(adulto), deixando de lado o que realmente ouvem de dentro de si pra ouvir o que já está no mundo.
Mas quando era pequeno(mais novo, porque pequeno sempre foi), Juca teve um problema sério de ouvido. Daqueles que exigem tratamento por muito tempo, e quando o médico "consertou" a orelha dele, deixou pra trás um problema muito grande: o ouvido direito de Juca ouve meio pra fora, meio pra dentro! Além de parecer meio surdo demais quando tem que conversar sussurrando, ele tem o incoveniente de ouvir o tempo todo o seu corpo funcionando(pergunte a ele a barulheira que é pouco antes do almoço) e o que é pior: A tal voz da consciência é real para ele! Ele nunca viu alguém que realmente ouvisse a tal vozinha e a dele não só existe como é irritante!
Mas o mais importante é que ele não falava dela pra ninguém. O que também lhe rendeu sérios problemas...
(PS.:Quem lê agora fica me perguntando: Como é que você sabe disso tudo? É contando a história dele e das enrascadas em que ele se meteu que eu vou mostrar como fiquei sabendo disso tudo e, principalmente, quem sou eu!)
... continua