segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Auto da barca do purgatório I

E que assim seja:


Conheço-lhes bem demais
Para fingir que não sei,
Devo dizer ademais
o que, decerto ouvirei.


A cartilha do drama
haverei de seguir.
Pois bastava uma dama
Para este mundo ruir.


Mas além do que se vê
Está o que se sente.
Mais profundo que você
Onde está o diferente?


Sob um manto que reluz
Todo sentimento vai
No papel que lhe propus
Abater-nos sem um "ai"


Em dezembro me acabo
E na chegada à barca
Diz-me então um diabo
que ao subir terei a marca.


E se o anjo não desdiz
Me pergunto por que fiz
Oh! escolha em desalinho
Por que não ser sozinho?


Quanto as damas em questão
Não darei opinião.
Duas, pois, eu vos lembro
Hão de marcar dezembro.


Não menos do que elas
Tal a prole deve ser
Os Fidalgos podem ver
Tais faces amarelas


E assim hão de seguir
Dois vão antes, três depois
De adonde vem quantos "pois"?




Foi cantando exatamente assim, em canção de ritmo velho e ultrapassado que foram muitos dos tipos ideais naquela função calendárica a ser cumprida ao final do ano. Mas se não são exatamente as funções inovadoras de dois tradicionais companheiros, qual seria mais a diversão que afligiria de maneira incontestável o pária que ali sofria para acompanhar tantos ao inferno na esperança de se salvarem à Glória?


De maneira mais objetiva, devemos objetivar as duas moças! Além delas, amplos Fidalgos, dois, apresentam-se junto de inocentes cavaleiros, também dois, e um possível surpreendente... Improvável, visto que seria somente um.


Preparativos...



Em tempo: O auto da barca do Purgatório

Um Auto (latimactu = ação, ato) é uma obra de um subgênero da literatura dramática, surgido na Idade Média, na Espanha, por volta do século XII. Pois a Península Ibérica é mesmo um ovo desde sempre e em Portugal, no século XVI, a moda pegou! Gil Vicente é a grande expressão desse gênero dramático, sempre escrito em redondilhas (versos de cinco ou sete sílabas poéticas) e visava satirizar pessoas. 
Camões e Dom Francisco Manuel de Melo também adotaram essa forma, lembra? Como os autos de Gil Vicente deixam perceber claramente (vide, por exemplo, o Auto da Alma e Auto da Barca do Inferno), a moral é um elemento decisivo nesse sub-gênero.


Já que é pra satirizar, mas com uma feição mais moderna, podemos pensar em algo um tanto diferente, que pega emprestado itens desses autos tão marcantes: 


- Uso do mesmo título (para efeito de comédia). SIM! Afinal de contas, um auto dramático que conta a história de personagens no purgatório é algo passível de realidade hoje em dia em véspera de qualquer natal em família.


- Redondilhas menores (5 sílabas) e maiores (7 sílabas) em ritmo e rima coerentes. Não sei! Não acho que sou capaz... Mas se o fizer, haverá tradução disponível.


- Completar, no adequado uso de aparelhagem eletroeletrônica, a trilogia de autos da barca durante esse tempo que está por vir: SIM! Afinal, a barca do purgatório foi a segunda, na linha de escrita de Gil Vicente, mas será a minha primeira. Será sucedida pelo Auto da barca do Inferno e finalizado, como deve ser, com o Auto da Barca da Glória.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

só um tanto.

Num dia a sensação pode aparecer como novidade e o silêncio vai dizer mais do que nunca, ele vai gritar. Talvez seja o resto de ligação continental que ainda mantenha as relações, ainda que sem o sorriso de charme. O frio na barriga, que antes subia junto com os alertas eletrônicos surgidos vai sendo substituído por alguma coisa diferente, por um abismo que cresce pra baixo e avança. Ou eu avanço?
As tecnologias chantageiam e o espaço vai se reduzindo, um suspiro mais profundo pode alterar a ordem das coisas e trazer a realidade. É uma ilha.
Mas ninguém vê como deveria ser, o afastamento é uma necessidade mas a proximidade é mais necessária ainda. Se não for explícito, será um escrito post-mortem indecifrável a quase todos, menos pelos literários.  Difícil mesmo é existir no meio disso tudo e sorrindo de alegria espontânea.
Nem tristeza espontânea se pode ter mais. E quando tudo necessariamente tem uma causa só, a conseqüência e a consciência se remediam mutuamente. Dopado, feliz e sorrindo pra esconder, na verdade, a falta de espontaneidade. Mesmo o discurso adolescente de tristeza entediada escondida pela animação não cabe aqui... É muito mais parecido com a criança que escolhe, um dia, não correr no recreio. E fica olhando tudo mais sem pensar em nada, mas um tanto triste por olhar tudo.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Sem calma.

Um minuto, conjunto de 60 segundos para o qual tudo flui. Num funil, todo o conteúdo desliza por uma superfície inicialmente ampla e preparada chegando, finalmente, a um determinado local. Sempre soube que era essa a finalidade, como alguém que vive pro fim, que corre pra beirada do penhasco. Era a corrida o que havia de mais interessante desde o início, mas isso não torna as coisas menos complicadas no final, já que mesmo buscando o aproveitamento máximo de cada passo como num acompanhamento em super câmera lenta.
Sentir os músculos em ardência e perceber que a planta do pé tende a pisar torto sempre, entendemos que o caminho é - sim - feito pra ser percorrido sozinho. Quando a postagem sobre o desapego me pegou pelas pernas ouvindo Adele, todo o resto confluiu para um mesmo ponto... O mais difícil do processo de desapego não é nem perceber que o fim é natural, mas ter que aceitar que ele chegando, merece a maior serenidade possível pra esperar que pode voltar em outra forma e que há de ser assim na vida inteira. Fazer planos acaba se tornando, na verdade, uma forma paliativa (subst paliativo remédio ou medida que alivia mas não cura) para não acreditar nesse futuro em forma de funil.
Apressado, sempre pensava na possibilidade de ser um ermitão, mas me dava melhor com as tragédias, como é usual. Acho que afunilar é dar proximidade o suficiente pra perceber que o importante é mesmo o que fica a mostra, talvez eu ainda possa aprender a ser irremediavelmente conformado com o que não está visível. Conformidade nunca foi lá o meu forte e exercitar o isolamento não seria uma solução.

Desassossego que não me deixa dormir
quem disse que não dói?
Respirar não é mais tão fácil
Nada em mim é natural

É um processo dotado de antes
De durante factual e inseparado do que veio
Com depois incerto, 
mais ocasional do que determinado.

PS.: Já diria Fernando Pessoa no Livro do Desassossego: "O coração, se pudesse pensar, pararia". Fiquei sem sentir o meu por alguns longos segundos.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

_HELL!
A dona da casinha é quem define em que parte fica cada um dos bonecos na brincadeira. E lá eles terão de ficar sempre, a ordem não deve ser desfeita nunca. Os bonecos tê seus pares e assim devem permanecer até segunda ordem (expressão mais do que usada por ela quando as grandes bochechas ficam mais vermelhas em contraste com o cabelo loiro). Todos esses bonecos têm seu lugar, seu par e seu penteado traçados, com o destino aberto ao que a fantasia dela decidir.
Todos menos um. De tipo belicoso, ele parece ter o seu destino traçado: A guerra até a morte. Pronto. Sozinho e rendido, ele não tem penteado que não seja visivelmente ridículo e criticável, ele não tem lugar que o suporte em pé que não seja em movimento... Ele não tem par como os outros, sempre será visto com outro verde.
_HELL!
O grito do que há de mais profundo e indesejado pra todos é o que mostra como o soldadinho está no lugar errado quando se trata da casinha perfeita.
_HELL! HELL! HELL!!!!
E por mais que aquela voz fosse doce em outros momentos, há uma série de coisas que simplesmente não cabem, talvez o soldadinho se queime inteiro e retorça no plástico de sua natureza. Talvez ele encontre seu próprio lugar na selva (como diria Caetano, "no coração do Brasil!!") onde não há casinha, penteado nem destino perfeito, só a possibilidade de dizer não quando de vontade sem que as consequências sejam chantagistas.
Elas sempre têm consequências, mas: "_Pra cima de mim não, violão!" era o que ele sempre repetia. Cabeça de plástico, maciça capaz de entender que o melodrama faz parte da vida das bochechas rosadas(e de seus bonequinhos perfeitos)... Capaz também de querer romper com isso. Sem dor.

Me adiantando à pergunta: Assim é, se lhe parece

19.09

Eu seria capaz de lembrar de tudo, mesmo tendo se passado dois anos desde então. Não estava frio, nem quente. Não havia incertezas no que eu queria, sempre soube que sairia dali tendo olhado dentro dos seus olhos e te beijado. Tudo que serviu de ambiente foi extremamente propício, desde a catuaba(ai, que falta de romantismo) deixada no congelador, do papo sobre as dancinhas que "entregam", comentários sobre os respectivos formatos das bocas, sobre as preferências pra noite... Sobre as mil formas de provocação.
Todos já estão cansados de saber COMO aconteceu, mas ninguém pode realmente saber como era o seu olhar ao passar por aquela porta olhando pra mim. Mais do que um convite, havia ali um chamado. Se não faço nada sem calcular minimamente as consequências das minhas atitudes, ali houve um momento de reflexão no qual escolhi ser capaz de não ligar a mínima pros outros. Se ainda havia música tocando na festa? Não mais. Gente no caminho? Não que eu tenha percebido. Bati, sim, naquela porta esperando ser bem recepcionado. Não fui. Esperei, afinal de contas a meta estava traçada. Devo dizer que foi cinematográfico, o primeiro beijo, e mais do que isso: cada um daqueles momentos ficou.
A música que mais fazia sucesso na época era dos Titãs, "Antes de você". Nada mais adequado.
Mas esses dois anos não poderiam, de maneira nenhuma, se esgotar aqui... Nem o texto, nem mais nada tem fim, porque...

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

X

De tudo que foi, fica o projeto de escrever a mentira dos fatos e disfarçá-las sob o véu de ficção. Ao contrário do que eu pensava, os momentos que merecem registros dos escritores (de verdade) são os momentos do que deveria ser, não o que é. Ainda que os irônicos utilizem o destaque da realidade, eles a mostram pra dizer o que seria o contrário.
Por isso as grandes histórias de amor são aquelas complicadas, de Tristão e Isolda, de Montéquios e Capuletos... O amor lindo, recíproco, verdadeiro e impossível numa gradação complexificante cada vez maior no qual cada pré-requisito não deve ser batido, quando o é, fica normal.
O normal segue a ordem, é ordinário... Não passa de uma boa novela. Quando a novela tem que dar audiência, então, carrega-se no impossível, quase sendo um grande romance. Assim, mantendo o amor central, rígido e certeiro, as novelas querem convencer da existência daquela forma. Pena.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

IX

De fato, andei parado.
Parado, como quem contempla o céu numa tarde de sábado.

Uma criança de repente percebe tudo que há em volta, se dá conta de que seu mundo é somente um dos mundos possíveis e que ele muito em breve será expandido. Olha pra rua e o que lhe parecia uma travessia dessas quase intermináveis e desafiadoras, passa a ser um conjunto de seis ou sete passos. Isso acontece de um momento pro outro, quase que acionando um gatilho de consciência. Tudo ganha significado novo e a separação constante que transforma tudo que existe em palavras deixa de existir. Não as palavras, essas nunca deixam de existir e passam de um nível a outro, transformando a realidade de maneiras totalmente diferentes a cada momento. A separação acaba e o todo finalmente ganha seu aspecto de todo, conjunto constante no instante. O momento não se separa de antes nem de depois e tudo isso não é somente agora.

Tudo, então, ganha um contorno diferente. O barulho tem outro significado, a felicidade fica longe do barulho e longe do clichê publicitário. De tanto falar, dizer, repetir, pubicar e por vezes gritar, a gente percebe que deixou de ser ouvido. Por isso fiquei parado, por mais que suplicasse de volta os arroubos de declarações, as estrelas do meu lado, as mil formas de amor autêntico... Tudo se transformou em algo descolado e paralelo, que merece apreciação, mas o reflexo disso não era mais visível, a fonte ficou difusa.

voltei, porque mesmo parado, o que interessava era o que estava se movendo.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

VIII

Ando precisando de uma desintoxicação. É quase como se essa coisa toda fosse o que realmente nos move. Já imaginou se a casca fosse o motivador de tudo? E de repente tudo passa a ganhar proporção maior do que tem que ganhar. O pensamento estratégico acaba comigo porque me transforma no maior competidor possível. Já ouviu dizer que alguns animais não param enquanto não derrubam seu adversário/obstáculo? Esse sou eu. Alguém que saia do jogo... Nunca aprendi a escapar de ser assim.
E por mais que as coisas padeçam de uma temporalidade sempre reiterada... Algumas coisas são melhores preservadas. Em conserva. Em mim. Um pote hermeticamente fechado.
É preciso destilar isso, que sinto como um veneno.
Quem sabe assim? Isso vai passar, calma. E já dá pra perceber desde agora que alguma coisa tem que ser maior, uma conquista a ser alcançada quase na impossibilidade. Racional demais pra não nadar pro impossível, competitivo demais pra dizer que vai se deixar vencer por pouco.
Queria algo que me parasse sem impedir nada.
Queria ser outro.
Queria.

sábado, 27 de agosto de 2011

VII

Tudo pode ser problematizado. Sempre.
O questionamento sobre a validade da problematização não é o que move, mas a NECESSIDADE de problematização de cada mínimo ato, por mais mínimo que ele seja, é que gera instabilidade.
Se você pode ver erros na forma de vôo de um Beija-Flor, otimizar esse vôo e capacitá-lo para que ele vá onde Fernão Capelo Gaivota nenhum jamais foi, que bom.
Pena que você perde o espetáculo de observar que ele fica parado no ar por tempos.
Ele voa em direções diferentes sem pedir permissão a ninguém, sem culpar a natureza pelas suas asas tortas e frágeis, sem problematizar excesso.
Pra responder a isso, pode-se produzir novidades no piloto automático e viver uma vida inteira assim, sem risco, sem problematização, sem vento.
Porque se tudo que está pra trás está pra hoje como um castelo de baralhos está pro vento...
Fica inevitável não pensar na fragilidade disso tudo. Na sobrevalorização dessas horas.